27.1.16

Sem asas nos pés

dia opaco.
meu pensamento reedita
lembranças antigas
e, como o tempo,
não sossega um só momento
e enquanto traduzo meu sentir
entre muda e irrequieta,
o vento do passado distante
sopra decidido e penetra pelas frestas
quase entornando meu barco confuso
exposto ao raivoso abismo oposto
que acorda meu pranto cor d’água de poço
que se revolve no escuro mofado de verde
que vaza mole vidraça
e pinga
sem dó
na poesia cor de ostra fugida
perdida no tempo
que me ilude não me alisa e me suga
e em breve pesará sobre meus ombros
e alquebrará minha vontade infante
de correr descalça sobre a terra nua nua
de saudade recalcitrante...
sem mais delongas,
arrio as velas do meu barco e ponto


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[janet i. zimmermann -  asas de jiz, pág. 179]

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