9.2.13

poema-de-cera


um dia a mãe plantou uma muda
numa lata de tinta velha pintada de claro azul.
e sustentou-a com fios de resto de bacheiro de lã
numa estaca de galho, trabalhada no facão.
e, com mãos firmes de mulher guerreira,
ajeitou o arranjo rente à parede de madeira,
no lado esquerdo da área dos fundos da casa do sul do mundo
que abrigou os sonhos tantos...
enquanto a verde brilhosa se esticava rapidamente,
eu nem reparava que me estirava tão rápido quanto...
e eu a regava depois do trabalho,
e quando podia,  
e antes do carnaval,
e quando não esquecia...
era rosa a cor da  filharada carnosa.
e pareciam de porcelana aquelas graças da criação.
não, não me recordo se era primavera ou se verão era
quando floresci com elas
em cachos de estrelas açucaradas...
às noites enluaradas
eu gostava de me sentar na caixa de lenhas
pintada com a mesma tinta da lata de tinta
convertida no vaso da planta em questão
(e não predestinada ao esquecimento),
e ficar pertinho dela em estado de contemplação...
vinha uma doçura suave que só de lembrar,
lágrimas tímidas e amorosas caçam liberdade...
e tudo aquilo me levava à meditação.
daí eu ativava meu par de asas sobre os cílios
e ia no rumo do luzimento, sem lápis, sem lenço...
e quando voltava da nau dos poetas,
trazia, caligrafado no peito,
todo o sentimento daquele tempo
em que aprendi a louvar a natureza.
hoje devolvo tudo à branquidão
com uma parte da minha verde e singela epopeia
e uma baita saudade da mãe das mil e duas mãos...

eram de cera as flores da trepadeira.

















Imagem: PlantaSonya

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