6.12.11

CHEIRO CHORADO

Cheiro úmido de mato remete-me à idade esverdeada, ao tempo dos pés descalços, clorofilados...
Lágrimas teimam em brotar além de mim, denunciando saudades infantis...
Então eu entro no poema respingando travessuras por todos os lados.
Estou encharcada de chuva fina.
Trouxe junto comigo um pouco do lodo da valeta por onde meus pés brincaram de passado.
Ali era um rio e eu era gigante.
Com as palmas do pé de butiá trancei uma ponte.  Cruzei a fronteira.
Na Argentina comprei sacoladas de verdes de todas as cores, pétalas de seda, de veludo, de cambraia, tafetá...  
Enchi os bolsos de penas molhadas, de cheiro de grama e perfume de regato.  
Trouxe vento encapsulado no rosto... Uma mãozada de pitanga, outra de amora...
Tatuei aqui dentro, muitas cores. Cores viventes. Luzalentes. Principalmente a cor do primeiro beijo. Do carinho cintilante...
Captei o vôo da libélula encantada...
Lá perguntei parede pr'um passarinho. Ele respondeu horizonte... E eu carrego sempre junto ao meu ninho a amizade do anjo diminuto...
Então construí um barco pra voltar, que depois virou branco e lindo chapéu.
Trouxe também o grito do Zéca, meu irmão-companheiro, piazito de guerra e de paz, pedindo pr’eu me cuidar nas corredeiras...
Deixo aqui no papel um pouco da ternura do barro(s) e água, muita água, não da chuvarada, água d’olhos mesmo, pois dou por mim que estou tão longe da minha guria e que agora meu José já partiu pr’aquela estrela combinada, bem pertinho das Três Marias...

jiz



Um comentário:

  1. É enorme o meu encantamento com a poesia que pulsa em cheiro chorado. Que coisa maravilhosa!

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