15.9.11

QUANDO O POEMA QUER SER

sentimento de falta
não cabe
neste pensamento.
não sei se é saudade
ou se é mero capricho.
talvez mal da idade...
sei que é uma ânsia
sem forma,
sem nome,
sem tempo,
sem lado,
sem chão,
sem azul.
não tem perfume.
não coça.
não canta.
doce, não é.
salgado, não.
pimenta, sem.
não é líquida,
nem há textura,
nem sólida estrutura.
não usa
máscara,
nem pintura,
nem apresenta passaporte.
não é do sul,
nem do norte.
sei que é uma alegre tristura
ou uma triste alegrura
esta marginal ternura
que já nem sei
cargas d’água donde vem...
afinal, o que é este sentimento
que não me cabe dentro do peito?
o que é isto,
este querer latente
que me invade a vontade
feito criança carente?
este querer que me cai em temporal
desprevenindo-me o dia?
será a flor do quintal
da vizinha
magnetizando meu querer
de admirá-la dia e noite e dia?
será o sofrer
d’alguma alma penada
d’algum alçapão de infinita solidão?
ou será algum buraco negro
querendo devorar meu coração?
o que é este sentir
que não quer se identificar?
seria o pensamento do Gullar
querendo traduzir-se em poema
aqui, neste humilde lugar?

jiz

Traduzir-se - Ferreira Gullar


Carmen Silvia Presotto 
lembrei de Gullar Janet Zimmermann..NÃO HÁ VAGAS

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira








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