9.9.11

CORAÇÃO EMPAREDADO



Neste casulo de concreto,
minhas borboletas têm asas quadradas.
Voejam quadriculadas cores...
Dentro deste inverno
tem até jardim de verão
com flores de cetim de hastes verd’aramados  
e folhas de tafetá verde-folha...
Têm perfume de incenso,
as corolas do meu roseiral...
Meus passarinhos de dentro
brincam de cachorrinho entre as almofadas.
Têm os bicos achatados e asas de voil.
Neste ninho de cimento,
de moderna arquitetura,
estão protegidos, os pequeninos,
das asas gigantes do vento...
Na entrada dest’alta casa
meu  cachorrinho de verdade
finge-se de morto tapete,
dia afora, noite adentro...
Dentro do meu fora luzalíneo
tem até céu de azul anil!
E tem seus olhos de lápis-lazúli,
bem ali, naquele lado d’ante-sala...
Sobre o aparador do canto
seus dois sóis, de soslaio,
me olham em raso pranto
que,  junto com as minhas águas,
viram grave e tortuoso rio
que escorre pr’ondulado mar
sobre a cama cor-de-mar,
com cheiro de mar, também,
onde as ondas batem e rebatem
nas quatro rochas do peito meu...
Aqui dentro, lírio meu,
a solidão é branca garça em revoada.
Vez em quando ela me leva,
levemente em suas asas
pros olhos de horizonte esticado
daquele homem-poeta-menino
que me desinventa ao dizer
que “a gente é rascunho de pássaro”...(*)
Aqui, minha dor,
dormita um universo enjanelado
expandindo-se em fina organza,  
preguiçosamente,
pelas asas das cortinas.
Cá dentro do meu pequeno amor, meigo amor,
cabe a dor do mundo
com suas fomes de olhos vidrados...
Aqui, neste quadrado, meu lamento,
enquadro meus desaguados
pensamentos...

jiz
09-09-2011
(*) Manoel de Barros

Nenhum comentário:

Postar um comentário