22.8.11

CÉREBRO E CORAÇÃO [Múcio Teixeira]


Acorda!  Ergue-te, é dia,
Não durmas mais, razão!
A luz que a vida guia
Não é do coração.

O coração é astro
Que brilha à noite só
Não deixa nem um rastro,
Apenas doira o pó.

Há uma luz mais pura,
Mais clara que o arrebol
Não brilha em noite escura,
Mas doura o dia: é o sol.

E o sol, do firmamento
Aclara a immensidão!...
A luz do sentimento
Desmaia ante a razão. 

Basta; não durmas tanto,
Meu cérebro, bem vês
Que o juvenil encanto
Deserta duma vez.

— A vida do poeta
Perpassa mais veloz
Que do gentio a setta
De um passarinho após...

A vida passa breve,
Que o digam nossos pais!
— E andorinha leve
Que vôa e não vem mais...

Ó Deus! Tu nos metteste
Num grande maosoleu
Tampado pelo céu...
E tu — és um cypreste!...


[Do livro de Múcio Teixeira , bisavô do meu marido Múcio. Considerado um dos poetas mais fecundos e esquecidos da literatura brasileira]



(Pgs. 228/229/230)

















(Múcio Teixeira - Barão Ergonte )


A MUCIO TEIXEIRA


Do negro chão, do amálgama profundo
Do grande nada — onde Potente assoma —
Tirado enfim o mundo,
Forjada a luz e a noite alma e discreta
Feita a Mulher — de flores, mel e aroma —
Criou Deus — o Poeta.

Adelaide de Castro Alves.
[irmã de Castro Alves]
Bahia, 1898.



BIBLIOGRAFIA — Vozes Tremulas -Violetas -Ondas e Nuvens - Sombras e Clarões - Novos ideaes - Prismas e Vibracões - Hugonianas - Poesías e Poemas - Celajez - Semblanzas Venezolanas- Brasileñas y Lusitanas- Poesías de Don Mucio Teixeira - Poesías escolhidas, 2 vols - Brazas e Cinzas - Campo Santo, ed. ilustrada.




O SONHO DOS SONHOS

Quanto mais lanço as vistas ao passado,
Mais sinto ter passado distrahido,
Por tanto bem — tão mal comprehendido,
Por tanto mal — tão bem recompensado !...

Em vão relanço meu olhar cançado
Pelo sombrio espaço percorrido :
Andei tanto — em tão pouco... e já perdido
Vejo tudo o que vi, sem ter olhado !

E assim prosigo, sempre audaz e errante,
Vendo, o que mais procuro, mais distante,
Sem ter nada — de tudo que já tive...

Quanto mais lanço as vistas ao passado,
Mais julgo a vida — o sonho mal sonhado
De quem nem sonha que a sonhar se vive !..

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